domingo, 15 de abril de 2012

(001) Dia Com Ele

Um Cara conhece outro cara . Ele se apaixona . O outro não.
O meu problema é ser inquieto , o meu problema , é sempre querer mais , eu não sou do tipo de pessoa que se contenta com pouco , comodismo não me move , e eu estou sempre perdido por ai procurando alguma coisa e de tanto procurar acabei te achando .
Eu comecei na defensiva como sempre , cavando minha própria cova e construindo paredes ao meu redor , paredes que me manteriam seguro por um tempo indeterminado . Eu só queria saber quem você realmente era , e agora depois de tudo me pergunto : “ Isso seria possível ? “
Conversas , insinuações e confissões foram feitas , você se mostrava um jogador esperto daqueles que realmente sabem o que estão fazendo e assim você foi conquistando seu território pouco a pouco movendo as peças calculadamente bem.
Minhas frases monossilábicas passaram a ser monólogos desajustados e guiados apenas pela emoção , quando eu menos percebi as paredes que eu tinha construído com tanto esforço , começaram a rachar , as rachaduras se intensificaram e cresciam da base ao topo , logo fiquei vulnerável como uma cobra que é poderosa e temida na terra mas que quando é vista de cima por uma águia não passa de um pequeno risco entre as pedras .
E mesmo vulnerável tentava manter meus pés no chão , fugindo de investidas e tomando caminhos alternativos . Porem a sua sinceridade me cativou e mesmo longe eu te sentia perto , mentir para você sobre o que eu realmente sentia era fácil , mas esconder isso de mim mesmo ficava cada dia mais difícil , eu contava as horas para chegar em casa e dividir meu dia morto contigo . E nisso imaginava , como seria te encontrar , como seria te ver , sentir o calor do seu abraço , desbravar seu corpo como um território desconhecido , provar do seu gosto .
O tão esperado dia chegou , depois de tantas tentativas frustradas finalmente iríamos olhar nos olhos um do outro e tentar talvez dessa maneira desvendar pensamentos . A viagem parecia longa , na mala eu apenas carregava expectativas que eu não queria demonstrar , na mente o seu rosto e no peito um coração que batia num ritmo acelerado . Ao descer do ônibus o que me aquecia não era o calor dos seus braços e sim o sol forte que brilhava bem lá no alto , eram quase 12h00 e então você chegou . Um carro parou e eu entrei , sem mais . Nem nos meus melhores pensamentos , eu poderia imaginar que seu sorriso era tão iluminado , tão convidativo , que sua pele podia ser tão macia e suas palavras tão doces . Minha reação se limitava ao riso bobo de quem não sabe ao certo o que fazer ou dizer .
A sós eu mal acreditava quando suas mãos tocavam as minhas , eu imaginei isso por tanto tempo e agora me sentia realizando um desejo . Era como se eu já te conhecesse e ali me sentia completo , vivo , seguro . A duvida nos cobria com a incerteza de levar isso adiante ou não , por fim nos rendemos ao fogo que consumia nossos corpos e isso me pareceu tão certo , ao sentir sua boca na minha o mundo ao meu redor desaparecia e restávamos apenas nós , seu corpo pesava sobre o meu numa dança hipnótica que me prendia dentro de você e eu mergulhava fundo o depois pouco me importava , mas chegou sem avisar e ali nos deitamos lado a lado , sem palavras , sem olhar .
Algo estava errado e eu logo pude notar , o jogo tinha se invertido , agora era eu quem investia e você insistia na defesa , sua insegurança me afastou , ficou tarde e depois de tudo eu fui , voltei para o meu mundo e a viagem se mostrou mais longa do que parecia ser .
Como alguém que vi apenas uma vez na vida , pode me soar tão familiar e mexer tanto assim comigo ? A ponto de me fazer querer largar tudo e fugir para um lugar nosso , que pelo menos na minha cabeça era nosso .
Os dias foram passando e o jogo se manteve , eu sentia a necessidade de dar as cartas e comandar a partida e você continuava se defendendo e mudando de lugar , sua frieza era aparente e agora sim eu conseguia entender que eu estava perdendo . No começo eu acreditei que com o tempo isso iria mudar , mas chega uma hora que você percebe que insistir não é sinônimo de realização . E as vezes é preciso tomar decisões que machucam e então eu tomei a minha e desisti não da minha felicidade mas sim de você .
Eu só queria que você soubesse que não te culpo por nada , que eu dei o melhor de mim e que de certa forma queria que você entendesse que enxergo o que aconteceu como um impulso de natureza humana . Como disse não me contento com pouco , logo a sua amizade não me interessa , ao menos não no momento , os pedaços de mim que restaram em você permanecem , junto com seus fragmentos que sobraram em mim . As conversas que tivemos , hoje são apenas confissões do que um dia desejamos e não chegamos a realizar .
Eu não pretendo resgatar nada do que ainda resta em mim , e sei que hoje você sorri para um outro alguém com novas promessas e um novo brilho no olhar , você tem a sua versão e não me interessa saber , o que ficou para trás só cabe ao tempo apagar , por mais clichê que possa ser eu sei que um dia essas feridas irão cicatrizar , e vão entrar para o meu baú de memórias .
Com tudo isso eu aprendi que não se pode negar o que se é , que eu não devo esconder o que sinto , orgulho não funciona nesses casos , e o que se perde , se perde para sempre .
Mas eu não vou deixar de sorrir nunca , nem deixar de acreditar que um dia eu sentirei isso novamente , e quando isso acontecer eu estarei mais forte , mais esperto e só me abrirei quando estivermos na mesma sintonia e ritmo para tentar sem pressa escrever uma historia nova e ainda não dita . Ou talvez repetirei o mesmo erro de novo por que sinceramente eu não posso me arrepender da minha intensidade , ela me define como pessoa , sofrer é conseqüência de viver , e repito eu não te culpo por não tentar , afinal eu não posso fazer você me amar se você não ama .
P.S : Titulo e descrição do texto baseados no filme " 500 Dias Com Ela " , assim como a imagem .
Gustavo Marcolino
15/04/2012

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

...

O voyeur



Todos os dias ele passava horas e horas desperdiçando sua vida com pensamentos distantes diante da janela . Vezes com o cigarro na mão , vezes com um copo de vodka , matando - se lentamente .

Observava a rua calma que na madrugada era pouco iluminada , nela via cachorros e gatos perdidos sem lar e sentia uma forte empatia por eles , certa vez imaginou – se como um cão livre , sem donos , que pode andar por ai correndo perigo sem se preocupar com o que terá que fazer quando voltar , pois afinal ele não teria para onde voltar.

As vezes via prostitutas que pareciam levar a vida sem compromisso com o mundo , que ele no fundo sempre desejou . Conhecer pessoas , ter uma noite de prazer e ser remunerado por isso , teoricamente não lhe parecia uma vida tão difícil assim .

Via crianças que vagavam sem direção , parecendo sempre procurar algo para anestesiar a ausência que lhes causava dor .

Sentia um vento frio e olhava a lua e seu esplendor , quando o céu estava limpo era possível achar uma tarraxa de brinco em meio a escuridão apenas se deixando guiar pelo brilho da lua que iluminava a rua .

As arvores da praça o fascinavam e ele se prendia em galhos secos , que formavam desenhos tenebrosos nas sombras , garras que pareciam tentar agarrar a vida de alguém sem dó ou motivo .

Mas em meio a tudo isso via a si mesmo ... perdido , observando qualidades e defeitos das pessoas que captava de longe na janela . Um voyeur obcecado pela vida moderna , testemunha ocular dos crimes da noite . Ele não se importava , não julgava , só olhava . E de tanto olhar se viciou na ação de nada fazer a não ser deixar os olhos seguirem os movimentos . Para ele tudo que parecia , era .

Sendo gritos , batidas , risadas ou sons de satisfação ele apenas mirava os olhos para a direção oposta e ignorava o mundo que girava ao seu redor , afinal sua dor de ser tão incapaz era mais forte e importante do que tentar mudar algo . Se acomodou a vida toda e morreu ali . O infarto não teve muito trabalho de paralisar um coração já morto que batia apenas por inércia .

Os cachorros , gatos e pessoas que passavam todos os dias ali não sentiram sua falta , e não tinham motivos para sentir , afinal ele era apenas um figurante exercendo uma ação eterna , a de apenas observar , sem opinar e sem se importar .

No dia seguinte a sua morte o sol continuou a raiar , e o mundo não parou nem por um segundo . Ninguém se importou com o homem que morreu na janela , pois ninguém parecia saber que um dia ele existiu .

G.M

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Ainda há tempo ?




Rosas Vermelhas


Senti uma pontada no peito ao deixar minha antiga vida para trás . Não sei explicar ao certo , mas é como se uma angustia tivesse tomado conta de mim .

Eu que nunca precisei de ninguém , que sempre fui só , me vi perdido e sem direção , rodeado apenas pelo meu próprio egoísmo que me dirigia .

As coisas fúteis que me satisfaziam antes , já não tinham um efeito tão duradouro , a sensação de estar bem era tão passageira como um trem , um trem que cruza um longo caminho em poucos segundos , fazendo alarde e provocando barulho , e que vai embora tão rápido quanto chegou .

Eu não me sentia bem , minhas mãos queimavam tentando tatear o chão , ajoelhado eu não sabia o que fazer , como fazer e por que fazer . Não tinha idéia de como tinha chegado aquele ponto e parecia não encontrar motivos para sair .

Me vi num lugar escuro , aprisionado dentro da minha própria mente . Não havia luz em parte alguma e tudo ao redor era confuso e sombrio . Cadê os sorrisos que um dia existiram ? Cadê as memórias que um dia foram boas , eu simplesmente não achava nada familiar .

Estava exposto no picadeiro da vergonha como se todos os rostos manchados apontassem seus dedos para mim , minha vontade era quebrar um a um , mas eu não conseguia .Ouvia apenas murmúrios distantes , e o circo dos horrores me consumia , sugava minha alegria e vontade de viver .

Nunca tentei provar nada para ninguém , e talvez por nunca ter me importado com a opinião alheia , as pessoas me julgassem tanto , isso nunca me incomodou , mas naquele momento tudo que eu desejava era uma máscara pra encobrir meus defeitos gritantes e esconder meu rosto de tamanha exposição .

Toda minha obscenidade e insensatez me confrontava e não havia mais nada a se fazer .

Eu sabia que esse dia chegaria , mas não sabia que viria tão depressa . Por um momento desejei estar no trem , aquele que partira tão depressa deixando apenas um rastro de fumaça .

Eu não tinha ninguém , imaginei o seu sorriso e isso me confortou , mas do que as drogas passageiras , mas mesmo assim não o suficiente para me fazer sumir dali . Naquele momento eu te queria , mesmo não sendo possível , mesmo meu orgulho sendo o maior empecilho , é difícil admitir fraqueza , mas no fundo eu queria que você me salvasse . Me salvasse de mim mesmo e de todos os meus medos infantis , sentia falta do seu conforto que eu deixei ir embora por puro egoísmo.

Mas era tarde demais , era eu contra o mundo , meu mundo .

Acompanhei um rastro branco no chão , em meio as trevas uma fresta entrava aos poucos e iluminava levemente aquilo que parecia um caminho formado por um pó branco que aos poucos me fez ficar em pé . Logo eu já conseguia correr e depois de uma caminhada que pareceu interminável achei uma porta aberta .
Minha respiração ofegante deixava transparecer meu medo e cansaço , mas eu não agüentava mais , precisava sair das sombras .

Passei tanto tempo na escuridão que quando vi a luz fiquei cego , a claridade me cegava e era difícil manter meus olhos abertos , eu pensava em você , pensava que talvez pudesse te ter novamente de alguma forma e isso me dava forças para continuar .

No fundo branco da minha mente , seu sorriso se formava e eu podia ler nos seus lábios : “- Mantenha os olhos abertos “ . Enquanto eu já quase gritava : “ - Não consigo , doi demais , é impossível “

Por toda minha vida eu tive preguiça de ser feliz , preguiça de iniciar uma conversa como qualquer pessoa normal , pois fugir e correr era mais fácil , eu não acreditava em mim , e precisava de elogios para me manter de pé , a falta deles me levou a cair no buraco , mas agora eu só pensava em sair de lá , não sei explicar ao certo , se foi por você ou se foi por mim mesmo .

Tudo que sei é que acordei , abri os olhos e a luz já não me machucava mais , eu podia ver com clareza tudo que tinha feito , toda a dor que causei a mim mesmo , e principalmente todo o rancor que eu plantei dentro de você . Minha cama estava vazia , e não era de se espantar , mas agora eu tinha forças , e estava decidido , de uma forma ou de outra eu queria você de volta , nunca é tarde demais quando algo tem que acontecer . Não seria fácil mas eu estava disposto .

Sai as pressas enrolado em trapos velhos , percorri o percurso até sua casa o mais rápido que consegui , o caminho era difícil , torto , com curvas , as pedras estavam espalhadas por todas as partes , meus pés sangravam , mas eu continuei , por que a luz me contagiava . Então cheguei .

Vi você de costas , como se tivesse virado as costas ao saber que eu batia a sua porta , e eu podia entender , sabia dos seus motivos e concordava com a maioria deles , só não concordava com um : “ Que era tarde demais “ .

Cheguei me aproximando devagar , juntando coragem , me recompondo , ganhando espaço , ainda assim hesitei e olhei para trás , tudo que restava era um caminho branco coberto de sangue que escorria dos meus pés , eu percorri o caminho mais difícil para te recuperar e nem sabia ao certo se conseguiria , mas algo me dizia para ao menos tentar .

Chamei seu nome , e você virou serio , confuso ao me ver , com ódio em me ver e com mais ódio ainda por não poder me tocar , vi seus lábios se entreabrirem num movimento de susto ao olhar as pegadas e o longo caminho que elas marcaram , lia no seu rosto “ Não acredito que você fez isso por mim “ ...

Era cedo para se ter qualquer conclusão , sempre é cedo para se ter certeza de tudo , pessoas tropeçam , fazem escolhas erradas , as vezes jogam espinhos , e o rancor é travesso e sujo , fica guardado e aparece nos piores momentos para ofuscar os acertos e sublinhar os erros , mas sempre há tempo quando se gosta , quando se quer e quando se está disposto . A distancia pode ser percorrida com sangue , mas o sangue rega as flores que nascem outra vez mais belas . Rosas vermelhas brotavam na estrada branca e junto com elas brotava em seu rosto um sorriso que numa curva interminável transparecia a sua alegria em me ver , e isso me bastava .

G.M

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Eu Acredito !

Eu acredito é no brilho das estrelas , que mesmo sendo ofuscado por grandes nuvens passageiras , continuam a brilhar cada vez mais .


Na certeza do vento que move meu cabelo e derruba folhas secas , renovando a paisagem , me fazendo querer flutuar .


No sereno da madrugada que contagia o ambiente num toque de melancolia nos fazendo refletir .


Na beleza de um botão de rosa que brota do chão , e vai se abrindo revelando sua beleza aos poucos .


Na tempestade que chega inundando tudo sem avisar , servindo para por nossa tola cabeça no lugar.


Numa chuva de verão no fim de tarde , que traz renovação , refrescando nossos mais fervorosos pensamentos.


No misterioso brilho do luar , que intensifica nossas emoções .


No que mais acredito ?

Acredito fielmente que um novo dia nasce , com os raios de sol que insistem em invadir as frestas da minha janela .


Acredito num sorriso sincero e no que cada pessoa tem de bom .


Acredito em você ! Em mim e no mundo .

Ingênuo demais ? Eu prefiro o termo feliz , sem mais .

Gustavo Marcolino .

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

...

O Ciclo

Sempre tem aquele homem com jeito de garoto que te prende de uma forma inexplicável , e quando você menos espera sente aquilo que chamam de “paixão” . É arrebatador , incontrolável , por mais que você queira ficar com os pés no chão é impossível se conter e você flutua , voa e se entrega regando esse sentimento com o seu melhor , fazendo de tudo para que ele cresça e floresça a cada dia mais.

Porem as vezes isso não é o suficiente , a paixão pode ser um sentimento individual , e bater a porta apenas de uma pessoa envolvida na historia , não importa o quanto você se esforce , se não é para ser , simplesmente não será .

Da mesma forma que é fácil voar , é fácil cair , e a queda muitas vezes é inesperada e rápida demais , você se esfola , se rasga , se vê no chão , dessa vez não só com os pés , mas sim de corpo e alma . Seu corpo bateu forte demais no asfalto , espalhando todas as suas esperanças misturando - as sobre desgraças escondidas.

Algo lhe diz “ Nunca ame novamente“ mas ao mesmo tempo você sabe que nunca é tempo demais .

Explorar o chão , é tudo que te resta , e você descobre que estando no chão nada mais pode te acontecer , afinal ali se encontra o limite . Aos poucos vai desvendando o que se encontra ao redor , e aprende que o ruim sempre tem um lado positivo , afinal estando no chão tudo está ao seu alcance , é mais fácil ver as coisas de onde você se encontra e tudo fica mais claro , a partir do momento que você aceita sua verdade.

Todos os dias você sobe um pouco mais , seja com uma frase feita que te faz sorrir , com um copo de cerveja compartilhado com alguém querido ou até mesmo uma risadinha espontânea de um bebê na rua , todas essas pequenas coisas te fazem crescer , te fazem bem e você está forte novamente , preparado para enfrentar o topo sem temer a queda ...

É uma segunda tediosa , quando você cruza a rua na saída do trabalho , para voltar para a casa , o ônibus parece que vai demorar hoje , o dia exaustivo contribui para o seu mau humor e tudo parece te irritar , você passa por um ponto de ônibus lotado e ao invés de reclamar da fila do ônibus , prefere desviar os olhos para um homem , com cabelos desgrenhados fumando um cigarro tranquilamente num ponto mais afastado da sua visão , ele repara que você o olha e retribui o olhar . Como quem não quer nada você se aproxima e pergunta se ele tem fogo para acender seu cigarro , ele apenas estende o isqueiro na sua frente e sorri , sorri como só um homem com jeito de garoto sorriria ...

É um ciclo que se recicla a cada nova experiência , uma lição que vai ser sempre gostosa de ser revisada , você pode dizer “nunca” , mas sabe que esse “nunca”cairá na sua cabeça quando você menos imaginar . É tesão , vontade , apesar dos pesares é bom se apaixonar . Não deixe o ciclo morrer , não desista sem ao menos tentar , não se baseie no passado , viva seu presente e tente não pensar no futuro , afinal a felicidade não é retilínea ela se alterna junto as emoções . Simplesmente viva e deixe o complicado para depois , talvez você perceba que o complicado nem é assim tão difícil .

Gustavo Marcolino

Não é exatamente autobiográfico , maaaaas ...

Todo Dia Parece Segunda

Eu queria acordar amanhã e ver tudo diferente , ter uma nova perspectiva de mim mesmo , queria sair por ai sem rumo e mudar minha vida , ser feliz sabe ? Sem ter que me preocupar com mais nada alem de ser feliz , mas tudo que me aguarda amanha é um trabalho fodido , cheio de gente chata e desinteressante .

Eu crio mundos alternativos na minha cabeça , a fantasia é tão mais divertida que a realidade , na minha mente eu sou o que eu quiser , e sempre sou a diva , o protagonista do meu show , sinto as luzes me perseguindo , é como se eu fosse importante , como se eu fosse alguém , as pessoas se importam comigo e todos querem estar perto de mim , o mundo gira ao meu redor e eu sou frio e calculista , seleciono a quem manipular de olhos fechados , tudo o que vier é soma .

Mas no fim quando acordo do meu sonho , vendo meus personagens indo embora , a vida começa a se bagunçar por si só , minhas escolhas erradas estão sempre voltando , e o passado insiste em me assombrar , as vezes eu acho que se existisse um radar de tristeza eu seria o campeão e as vezes sinto que o controle foge da minha mão .

Como viver sem se importar ? Como sonhar e não desejar ter ? Eu que sempre busquei um simples modo de vida , agora me pego sufocado a problemas rotineiros , como amor , dividas e escolhas .

Eu não sou feliz e não tenho vergonha de admitir , eu não gosto de mim e não preciso da sua pena , não falo isso para chamar atenção , é que como disse me sinto sufocado e me entala a garganta conviver com isso , hoje é um daqueles dias que tudo que eu quero é desabar deixar o meu mudo sair do lugar , mas as lagrimas estão presas e insistem em não querer descer .

As vezes acho que sou feito de papel , um papel comum e sem valor , que qualquer pessoa pode ler , amassar e atirar no lixo , quem se importa ?

Nem só de escuridão e sombras é feito o meu mundo , eu alterno pequenos minutos de felicidade , onde me encontro com amigos para falar da minha tristeza , mas me sinto sozinho mesmo rodeado de gente , com o copo na mão eu escorrego no tempo , e fico martelando em minha cabeça probabilidades e situações .

Não sei definir , mas me sinto incompleto , não só de amor e companhia , mas sinto que encarnei no corpo errado e estou cansado da minha melancolia .
Ando precisando me encontrar , que grande clichê , que grande verdade ... é tudo que eu preciso , estar fora do lugar , fora de mim , fora do tudo que eu chamo de mundo .
Agora vou dormir , para talvez amanha acordar , se acordar , abrirei os olhos e verei mais um dia sem graça começar ...

Gustavo Marcolino

#First !

A Mulher Que Não Sabia Sorrir ...

Ela caminhava em direção a escuridão , ao seu redor a pequena cidade era um contraste de construções de alvenaria simples e paisagens verdes , que aquele horário pareciam mais sombrias que o normal . As ruas estavam se esvaziando e a mulher , se afastava cada vez mais do movimento e do lugar que ela costumava chamar de casa . Milhares de coisas passavam pela sua cabeça , o barulho dos carros era praticamente ensurdecedor , mas ia ficando cada vez mais ameno a medida que ela se afastava do centro da cidade , ela nem se importava , na verdade ela nem ouvia , estava presa mais uma vez dentro da sua própria consciência , focada em chegar a um lugar onde pudesse ficar em fim só .

Imagens distorcidas passavam rapidamente diante de seus olhos , ela até conseguia identificar alguns rostos , mas não conseguia definir sentimento algum por aquelas pessoas .

Caminhou batendo suas botas no chão de concreto , até ouvir seus passos ecoarem , sabendo que havia chegado ao tablado de madeira , da ponte da cidade , o som de suas botas soou como um alarme e ela se focava novamente em seu caminho , se aproximou da grade da ponte e debruçou entregando seu corpo cansado ao ferro frio de armação .

Revirou sua bolsa , tirando de lá uma garrafa esverdeada contendo vinho , um vinho barato que ela comprara no caminho , abriu a garrafa desesperadamente parecendo alguém que abre uma porta esperando cura e salvação , três goles foi o começo , do que seriam vários outros. Até que sentiu a garrafa ficar leve em suas mãos e a jogou no rio , como alguém que manda uma mensagem de socorro em uma garrafa , fez o mesmo gesto , depositando todo seu vazio dentro daquele recipiente de vidro , na esperança frustrada de que algum desconhecido distante a achasse e entendesse a mensagem . Em seguida , pegou o maço que continha alguns cigarros amassados e acendeu um , fumando lentamente , sentindo o amargo gosto do tabaco, querendo sumir e se desfazer junto a fumaça . Ficou ali parada olhando para baixo , apenas observando o movimento calmo da água do rio abaixo de seus pés. Já estava ficando tarde e o ponto onde se encontrava , era deserto e silencioso , tudo que ela queria .

Então se distanciou da ponte e foi se dirigindo novamente ao centro .

O gosto do álcool estava presente em sua boca e a fumaça do cigarro impregnava em suas roupas , roupas pretas , de alguém que vive um luto interminável , velando por si mesma .

Felícia era seu nome e por ironia ou não , Felícia não era feliz . Na verdade ela não entendia bem o conceito de felicidade da sociedade em geral , não aceitava e julgava o comportamento das pessoas uma heresia a sua inteligência e uma hipocrisia diante delas mesmas , ela não sabia sorrir , e simplesmente não conseguia entender , aquelas estranhas curvas que brotavam nos rostos das pessoas , aquele movimento de contorção que a boca faz alinhando automaticamente os dentes junto a sons vezes contidos , vezes estridentes e extremamente irritantes , enquanto elas estavam nas mesas de bares , cafés ou até mesmo em suas próprias casas , conversando umas com as outras , sobre bens matérias fúteis e descartáveis , relações superficiais ou trabalhos que eram maçantes e tediosos , mas mostravam o quanto elas eram importantes e bem sucedidas , ela não entendia o por que daquele movimento que as pessoas chamavam de sorriso .

Não que algum dia tenha tentado entender , Felícia foi uma criança solitária , sua única companhia era a mãe uma professora aposentada que a ensinava em casa . Já na adolescência teve que encarar um de seus maiores medos , as pessoas e a vida em sociedade , muitas vezes , as conversas não passavam de simples comprimentos com a cabeça ou de um monossílabo“ Oi “ , nunca sorrisos ou qualquer outra demonstração de conforto com a situação . Para ela esse pouco contato já era um sacrifício .

Depois da morte de sua mãe , a garota que aos poucos se tornava mulher , passou a levar uma vida reclusa , aprisionada por ela mesma e uma antiga casa . Basicamente ela não tinha motivos para sorrir , de certa forma tinha preguiça de ser feliz e não tinha coragem para tentar . A felicidade era incerta e o caminho até ela muitas vezes doloroso . E foi assim que ela cresceu cercada de medo e frustração , presa a opiniões de sua mãe uma senhora triste e depressiva que direta ou indiretamente influenciou muito em sua formação .

A noite ficava cada vez mais fria , já passava das duas da manhã , e o movimento na avenida , daquela pequena cidade diminuía a cada minuto , os carros já não faziam mais tanto barulho assim , alias era raro ouvir algum carro passando por ali devido ao horário. O vento era cortante e gritava alto uma frase que parecia interminável .

Mais consciente de si , ela chegou novamente ao centro da cidade , olhou para cima e contemplou o fraco brilho das estrelas , que estava ofuscado por densas nuvens mescladas de tons escuros , uma tempestade com certeza cairia naquela noite , o clima era úmido e o sereno molhava vagarosamente seu rosto .

Afastando seu olhar do céu , reparou que todas as luzes da rua estavam quebradas com exceção de uma única , a ultima lâmpada no seu alcance de visão estava acessa e brilhava fortemente , como se brilhasse por todas as outras juntas , na rua não havia ninguém , apenas dois gatos que brincavam gentilmente entre si , a mulher caminhou ainda um pouco tonta por conta do vinho , e ao se aproximar da ultima lâmpada , reparou um movimento rápido que a fez piscar para confirmar sua visão . Um homem estava lá , parado de costas , ela podia observar o longo cabelo loiro que batia na proximidade das costas dele , com mais um rápido movimento o homem se virou , fazendo a mulher tremer diante de tanta beleza .

O homem que ali estava era um contraste nítido de Felícia , com um traje social branco e uma bengala na mão , parecia sereno e feliz , de rosto limpo e barba bem feita , ele vinha caminhando em direção a mulher que se encontrava na direção oposta.

- Olá . Disse o homem . Uma noite fria , não acha ? Dirigindo –se a mulher parada a sua frente .

Felícia , não gostava de conversar com ninguém. Ela pensou em correr , ou simplesmente sair andando , mas havia algo de diferente naquele homem , alem de sua beleza , ele tinha um ar misterioso , algo intrigante , que até então não fazia sentido algum . Diante de tantas dúvidas ela , apenas respondeu em tom baixo :

- Sim , está .

O homem que aparentava ter seus trinta e pouco anos , sorriu em resposta e aproximou-se mais daquela mulher , apoiando-se na bengala em passos curtos e lentos , dizendo :

- Se concorda comigo , então por que ainda continua aqui ? Vá para casa , o que faz uma mulher sozinha na rua , em uma noite fria como essa ?! – Disse o homem num leve tom de provocação .

Ao ouvir essas palavras Felícia primeiramente , teve raiva , ela odiava o fato de estranhos lhe ordenaram qualquer coisa . Não contendo suas palavras ela apenas retrucou :

- Quem é você para me mandar para a casa ? Quem é você para me dizer o que fazer ? Eu nem ao menos te conheço , por que daria ouvidos a um estranho ?

O homem se aproximou , ficando cara a cara com a mulher e disse :

- Estranho ? Eu não diria que sou estranho , alias aposto que lhe pareço muito familiar , você roga pelo meu nome todas as noites , me convida a entrar em sua vida a cada nova derrota e com certeza te conheço melhor do que você mesma !

Essa afirmação , chocou Felícia , que agora se sentia tensa e pensava , “ Quem é esse homem , que julga me conhecer tão bem ? “ , então ela perguntou a ele , tentando não deixar transparecer sua tensão :

- Quem – é – você ? - Disse ela , pronunciando cada palavra lentamente , como alguém que está prestes a perder a paciência e usa a ironia da calma para se expressar .

Dessa vez o homem não se aproximou mais , apenas abriu a boca pronunciou –se com a calma e clareza de quem quer ser entendido :

- Eu sou a sua única certeza , e ao mesmo tempo trago comigo todas as incertezas que alguém pode ter . Todos esperam por mim e mais cedo ou mais tarde acabam cruzando meu caminho , eu posso ser lindo e sereno , mas também posso aparentar feiúra e medo . Vários temem a minha chegada , e muitos outros choram pela minha partida , eu posso chegar quando você menos imagina te pegando de surpresa e te levando para um caminho aparentemente sem volta , mas as vezes tenho hora marcada e ninguém estranha quando chego , não existem barreiras que possam me prender , a única coisa que me atrasa é o tempo , e as vezes esse mesmo tempo insiste em me acelerar , ninguém controla o meu caminho e tão pouco sabe onde ele leva , eu sou aquele que você insiste em chamar , tentei evitar vir tão cedo , mas seria de má educação rejeitar outro convite seu , no fundo você já me conhece , mas mesmo assim gosto do impacto do meu nome , é ego sabe ? Prazer eu sou a morte .
Disse o homem terminando num tom de arrogância porem mantendo a serenidade .

As ultimas palavras do homem realmente causaram um impacto em Felícia .

A morte ? Será isso apenas um pesadelo , ela então abriu e fechou os olhos rapidamente tentando acordar , mas nada aconteceu a morte continuava parada a sua frente . A mulher então se lembrou de noites angustiantes e sem razão onde ela clamava pela morte , sua covardia era tanta que ela não tinha coragem de tirar a própria vida , porem torcia todos os dias para que algo acontecesse com ela , afinal viver é mais difícil que morrer .

Os pensamentos da mulher foram interrompidos novamente pela voz do homem .

- Vamos , você já esperou muito tempo por isso, a hora chegou , me acompanhe ... - E o homem virou as costas e começou a caminhar lentamente apoiando –se na bengala .

Felícia , só pensava em uma coisa , “Como morrer se eu nem ao menos vivi ? “

Viver não significa estar vivo , viver consiste , em derrotas e conquistas , a decepção faz parte da normalidade , mas nem só de decepção é feita a vida , se você foge e nega a si mesmo , você não vive , simplesmente espera pela morte , e foi isso que ela fez , foi fria demais para viver , mesquinha demais para sorrir , e agora mais uma vez estava sendo covarde , não queria encarar a incerteza da morte .

Ela então se virou rapidamente na direção oposta ao homem , e começou a correr , corria e sentia o vento gelado em seu rosto , o medo acelerava seu coração que toda a vida foi morno e parado . Olhou para trás e sentiu que a escuridão estava prestar a lhe engolir , a única luz que antes brilhava , agora também havia se apagado , ela não parou de correr e mais a frente avistou o homem de branco , a esperando na esquina . Por mais que sua vida não tivesse sentido , e que ela não tivesse motivos para continuar vivendo , se deu conta de que não queria morrer , e agora não era apenas por medo , e sim por que de alguma forma estava arrependida da vida insossa que levava , desviou do homem entrando em um beco , corria ofegante fugindo da morte , desviando dos obstáculos , latas , caixas vazias , e lixo , até que sem ter mais controle de si mesma escorregou na lama que tomava o chão e caiu ...

A chuva caia fortemente , batendo no chão de madeira da ponte , trovões pavorosos tomavam conta do ambiente e a única luminosidade que se via , eram clarões no céu formados por relâmpagos constantes .

A dor deixava a cabeça de Felícia pesada , ela foi despertada de um terrível sonho através da água fria que pingava em seu rosto . Tinha bebido demais e adormeceu ali mesmo na ponte sem se dar conta , as imagens do pesadelo ainda a dominavam e pairavam perturbando sua mente .

Palavras como : Desprezo , indiferença e solidão , se destacavam em seus pensamentos parecendo letreiros luminosos .

Como um sonho pode influenciar tanto a vida de alguém que nunca se importou com influencia nenhuma ?

Ela se levantou pensativa e apoiou-se novamente no parapeito da ponte , de uma coisa tinha certeza , a mudança não viria do nada , teria de ser conquistada a cada dia , matando um leão por vez , mas algo já havia mudado , ela estava cansada de seu próprio medo e não agüentava mais a idéia de continuar levando aquela vida sem sentido .

Seria difícil encarar os rostos vazios na próxima vez que se depara-se com eles , mas de uma coisa tinha certeza , não fugiria , não mais , ela estava pronta para encarar seus medos .

Olhou para o turbulento céu , e sentiu mais uma vez a chuva cair em seu rosto , se sentia viva , não tinha mais medo , e pela primeira vez na vida ela sorriu . Um sorriso tímido de quem espera por mais , e ela sabia que daqui pra frente muitos outros viriam, talvez mais intensos e com mais contrações de músculos , tinha aceitado a si mesma e estava pronta para isso .

Intercalado a esses sorrisos sabia que teria de enfrentar a decepção , porem já não temia e aceitava , por que agora podia ver que viver não é apenas ser feliz , viver é encarar a realidade triste do mundo e ainda assim , encontrar motivos em meio ao caos para sorrir .
Nada mudaria de um dia para o outro e Felícia tinha um longo caminho a percorrer , porem , dessa vez ela queria isso , e lutaria com todos os recursos possíveis para mudar a si mesma , reinventar suas opiniões e conquistar sua felicidade .

Agora se sentia forte o suficiente , acabou achando nela mesma motivos para continuar , a partir do presente construiria uma nova historia e prometeu a si mesma que só iria parar , quando não agüentasse mais ... sorrir .

Fim .

Gustavo Marcolino