quarta-feira, 28 de setembro de 2011

#First !

A Mulher Que Não Sabia Sorrir ...

Ela caminhava em direção a escuridão , ao seu redor a pequena cidade era um contraste de construções de alvenaria simples e paisagens verdes , que aquele horário pareciam mais sombrias que o normal . As ruas estavam se esvaziando e a mulher , se afastava cada vez mais do movimento e do lugar que ela costumava chamar de casa . Milhares de coisas passavam pela sua cabeça , o barulho dos carros era praticamente ensurdecedor , mas ia ficando cada vez mais ameno a medida que ela se afastava do centro da cidade , ela nem se importava , na verdade ela nem ouvia , estava presa mais uma vez dentro da sua própria consciência , focada em chegar a um lugar onde pudesse ficar em fim só .

Imagens distorcidas passavam rapidamente diante de seus olhos , ela até conseguia identificar alguns rostos , mas não conseguia definir sentimento algum por aquelas pessoas .

Caminhou batendo suas botas no chão de concreto , até ouvir seus passos ecoarem , sabendo que havia chegado ao tablado de madeira , da ponte da cidade , o som de suas botas soou como um alarme e ela se focava novamente em seu caminho , se aproximou da grade da ponte e debruçou entregando seu corpo cansado ao ferro frio de armação .

Revirou sua bolsa , tirando de lá uma garrafa esverdeada contendo vinho , um vinho barato que ela comprara no caminho , abriu a garrafa desesperadamente parecendo alguém que abre uma porta esperando cura e salvação , três goles foi o começo , do que seriam vários outros. Até que sentiu a garrafa ficar leve em suas mãos e a jogou no rio , como alguém que manda uma mensagem de socorro em uma garrafa , fez o mesmo gesto , depositando todo seu vazio dentro daquele recipiente de vidro , na esperança frustrada de que algum desconhecido distante a achasse e entendesse a mensagem . Em seguida , pegou o maço que continha alguns cigarros amassados e acendeu um , fumando lentamente , sentindo o amargo gosto do tabaco, querendo sumir e se desfazer junto a fumaça . Ficou ali parada olhando para baixo , apenas observando o movimento calmo da água do rio abaixo de seus pés. Já estava ficando tarde e o ponto onde se encontrava , era deserto e silencioso , tudo que ela queria .

Então se distanciou da ponte e foi se dirigindo novamente ao centro .

O gosto do álcool estava presente em sua boca e a fumaça do cigarro impregnava em suas roupas , roupas pretas , de alguém que vive um luto interminável , velando por si mesma .

Felícia era seu nome e por ironia ou não , Felícia não era feliz . Na verdade ela não entendia bem o conceito de felicidade da sociedade em geral , não aceitava e julgava o comportamento das pessoas uma heresia a sua inteligência e uma hipocrisia diante delas mesmas , ela não sabia sorrir , e simplesmente não conseguia entender , aquelas estranhas curvas que brotavam nos rostos das pessoas , aquele movimento de contorção que a boca faz alinhando automaticamente os dentes junto a sons vezes contidos , vezes estridentes e extremamente irritantes , enquanto elas estavam nas mesas de bares , cafés ou até mesmo em suas próprias casas , conversando umas com as outras , sobre bens matérias fúteis e descartáveis , relações superficiais ou trabalhos que eram maçantes e tediosos , mas mostravam o quanto elas eram importantes e bem sucedidas , ela não entendia o por que daquele movimento que as pessoas chamavam de sorriso .

Não que algum dia tenha tentado entender , Felícia foi uma criança solitária , sua única companhia era a mãe uma professora aposentada que a ensinava em casa . Já na adolescência teve que encarar um de seus maiores medos , as pessoas e a vida em sociedade , muitas vezes , as conversas não passavam de simples comprimentos com a cabeça ou de um monossílabo“ Oi “ , nunca sorrisos ou qualquer outra demonstração de conforto com a situação . Para ela esse pouco contato já era um sacrifício .

Depois da morte de sua mãe , a garota que aos poucos se tornava mulher , passou a levar uma vida reclusa , aprisionada por ela mesma e uma antiga casa . Basicamente ela não tinha motivos para sorrir , de certa forma tinha preguiça de ser feliz e não tinha coragem para tentar . A felicidade era incerta e o caminho até ela muitas vezes doloroso . E foi assim que ela cresceu cercada de medo e frustração , presa a opiniões de sua mãe uma senhora triste e depressiva que direta ou indiretamente influenciou muito em sua formação .

A noite ficava cada vez mais fria , já passava das duas da manhã , e o movimento na avenida , daquela pequena cidade diminuía a cada minuto , os carros já não faziam mais tanto barulho assim , alias era raro ouvir algum carro passando por ali devido ao horário. O vento era cortante e gritava alto uma frase que parecia interminável .

Mais consciente de si , ela chegou novamente ao centro da cidade , olhou para cima e contemplou o fraco brilho das estrelas , que estava ofuscado por densas nuvens mescladas de tons escuros , uma tempestade com certeza cairia naquela noite , o clima era úmido e o sereno molhava vagarosamente seu rosto .

Afastando seu olhar do céu , reparou que todas as luzes da rua estavam quebradas com exceção de uma única , a ultima lâmpada no seu alcance de visão estava acessa e brilhava fortemente , como se brilhasse por todas as outras juntas , na rua não havia ninguém , apenas dois gatos que brincavam gentilmente entre si , a mulher caminhou ainda um pouco tonta por conta do vinho , e ao se aproximar da ultima lâmpada , reparou um movimento rápido que a fez piscar para confirmar sua visão . Um homem estava lá , parado de costas , ela podia observar o longo cabelo loiro que batia na proximidade das costas dele , com mais um rápido movimento o homem se virou , fazendo a mulher tremer diante de tanta beleza .

O homem que ali estava era um contraste nítido de Felícia , com um traje social branco e uma bengala na mão , parecia sereno e feliz , de rosto limpo e barba bem feita , ele vinha caminhando em direção a mulher que se encontrava na direção oposta.

- Olá . Disse o homem . Uma noite fria , não acha ? Dirigindo –se a mulher parada a sua frente .

Felícia , não gostava de conversar com ninguém. Ela pensou em correr , ou simplesmente sair andando , mas havia algo de diferente naquele homem , alem de sua beleza , ele tinha um ar misterioso , algo intrigante , que até então não fazia sentido algum . Diante de tantas dúvidas ela , apenas respondeu em tom baixo :

- Sim , está .

O homem que aparentava ter seus trinta e pouco anos , sorriu em resposta e aproximou-se mais daquela mulher , apoiando-se na bengala em passos curtos e lentos , dizendo :

- Se concorda comigo , então por que ainda continua aqui ? Vá para casa , o que faz uma mulher sozinha na rua , em uma noite fria como essa ?! – Disse o homem num leve tom de provocação .

Ao ouvir essas palavras Felícia primeiramente , teve raiva , ela odiava o fato de estranhos lhe ordenaram qualquer coisa . Não contendo suas palavras ela apenas retrucou :

- Quem é você para me mandar para a casa ? Quem é você para me dizer o que fazer ? Eu nem ao menos te conheço , por que daria ouvidos a um estranho ?

O homem se aproximou , ficando cara a cara com a mulher e disse :

- Estranho ? Eu não diria que sou estranho , alias aposto que lhe pareço muito familiar , você roga pelo meu nome todas as noites , me convida a entrar em sua vida a cada nova derrota e com certeza te conheço melhor do que você mesma !

Essa afirmação , chocou Felícia , que agora se sentia tensa e pensava , “ Quem é esse homem , que julga me conhecer tão bem ? “ , então ela perguntou a ele , tentando não deixar transparecer sua tensão :

- Quem – é – você ? - Disse ela , pronunciando cada palavra lentamente , como alguém que está prestes a perder a paciência e usa a ironia da calma para se expressar .

Dessa vez o homem não se aproximou mais , apenas abriu a boca pronunciou –se com a calma e clareza de quem quer ser entendido :

- Eu sou a sua única certeza , e ao mesmo tempo trago comigo todas as incertezas que alguém pode ter . Todos esperam por mim e mais cedo ou mais tarde acabam cruzando meu caminho , eu posso ser lindo e sereno , mas também posso aparentar feiúra e medo . Vários temem a minha chegada , e muitos outros choram pela minha partida , eu posso chegar quando você menos imagina te pegando de surpresa e te levando para um caminho aparentemente sem volta , mas as vezes tenho hora marcada e ninguém estranha quando chego , não existem barreiras que possam me prender , a única coisa que me atrasa é o tempo , e as vezes esse mesmo tempo insiste em me acelerar , ninguém controla o meu caminho e tão pouco sabe onde ele leva , eu sou aquele que você insiste em chamar , tentei evitar vir tão cedo , mas seria de má educação rejeitar outro convite seu , no fundo você já me conhece , mas mesmo assim gosto do impacto do meu nome , é ego sabe ? Prazer eu sou a morte .
Disse o homem terminando num tom de arrogância porem mantendo a serenidade .

As ultimas palavras do homem realmente causaram um impacto em Felícia .

A morte ? Será isso apenas um pesadelo , ela então abriu e fechou os olhos rapidamente tentando acordar , mas nada aconteceu a morte continuava parada a sua frente . A mulher então se lembrou de noites angustiantes e sem razão onde ela clamava pela morte , sua covardia era tanta que ela não tinha coragem de tirar a própria vida , porem torcia todos os dias para que algo acontecesse com ela , afinal viver é mais difícil que morrer .

Os pensamentos da mulher foram interrompidos novamente pela voz do homem .

- Vamos , você já esperou muito tempo por isso, a hora chegou , me acompanhe ... - E o homem virou as costas e começou a caminhar lentamente apoiando –se na bengala .

Felícia , só pensava em uma coisa , “Como morrer se eu nem ao menos vivi ? “

Viver não significa estar vivo , viver consiste , em derrotas e conquistas , a decepção faz parte da normalidade , mas nem só de decepção é feita a vida , se você foge e nega a si mesmo , você não vive , simplesmente espera pela morte , e foi isso que ela fez , foi fria demais para viver , mesquinha demais para sorrir , e agora mais uma vez estava sendo covarde , não queria encarar a incerteza da morte .

Ela então se virou rapidamente na direção oposta ao homem , e começou a correr , corria e sentia o vento gelado em seu rosto , o medo acelerava seu coração que toda a vida foi morno e parado . Olhou para trás e sentiu que a escuridão estava prestar a lhe engolir , a única luz que antes brilhava , agora também havia se apagado , ela não parou de correr e mais a frente avistou o homem de branco , a esperando na esquina . Por mais que sua vida não tivesse sentido , e que ela não tivesse motivos para continuar vivendo , se deu conta de que não queria morrer , e agora não era apenas por medo , e sim por que de alguma forma estava arrependida da vida insossa que levava , desviou do homem entrando em um beco , corria ofegante fugindo da morte , desviando dos obstáculos , latas , caixas vazias , e lixo , até que sem ter mais controle de si mesma escorregou na lama que tomava o chão e caiu ...

A chuva caia fortemente , batendo no chão de madeira da ponte , trovões pavorosos tomavam conta do ambiente e a única luminosidade que se via , eram clarões no céu formados por relâmpagos constantes .

A dor deixava a cabeça de Felícia pesada , ela foi despertada de um terrível sonho através da água fria que pingava em seu rosto . Tinha bebido demais e adormeceu ali mesmo na ponte sem se dar conta , as imagens do pesadelo ainda a dominavam e pairavam perturbando sua mente .

Palavras como : Desprezo , indiferença e solidão , se destacavam em seus pensamentos parecendo letreiros luminosos .

Como um sonho pode influenciar tanto a vida de alguém que nunca se importou com influencia nenhuma ?

Ela se levantou pensativa e apoiou-se novamente no parapeito da ponte , de uma coisa tinha certeza , a mudança não viria do nada , teria de ser conquistada a cada dia , matando um leão por vez , mas algo já havia mudado , ela estava cansada de seu próprio medo e não agüentava mais a idéia de continuar levando aquela vida sem sentido .

Seria difícil encarar os rostos vazios na próxima vez que se depara-se com eles , mas de uma coisa tinha certeza , não fugiria , não mais , ela estava pronta para encarar seus medos .

Olhou para o turbulento céu , e sentiu mais uma vez a chuva cair em seu rosto , se sentia viva , não tinha mais medo , e pela primeira vez na vida ela sorriu . Um sorriso tímido de quem espera por mais , e ela sabia que daqui pra frente muitos outros viriam, talvez mais intensos e com mais contrações de músculos , tinha aceitado a si mesma e estava pronta para isso .

Intercalado a esses sorrisos sabia que teria de enfrentar a decepção , porem já não temia e aceitava , por que agora podia ver que viver não é apenas ser feliz , viver é encarar a realidade triste do mundo e ainda assim , encontrar motivos em meio ao caos para sorrir .
Nada mudaria de um dia para o outro e Felícia tinha um longo caminho a percorrer , porem , dessa vez ela queria isso , e lutaria com todos os recursos possíveis para mudar a si mesma , reinventar suas opiniões e conquistar sua felicidade .

Agora se sentia forte o suficiente , acabou achando nela mesma motivos para continuar , a partir do presente construiria uma nova historia e prometeu a si mesma que só iria parar , quando não agüentasse mais ... sorrir .

Fim .

Gustavo Marcolino

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