domingo, 15 de abril de 2012
(001) Dia Com Ele
Um Cara conhece outro cara . Ele se apaixona . O outro não.
O meu problema é ser inquieto , o meu problema , é sempre querer mais , eu não sou do tipo de pessoa que se contenta com pouco , comodismo não me move , e eu estou sempre perdido por ai procurando alguma coisa e de tanto procurar acabei te achando .
Eu comecei na defensiva como sempre , cavando minha própria cova e construindo paredes ao meu redor , paredes que me manteriam seguro por um tempo indeterminado . Eu só queria saber quem você realmente era , e agora depois de tudo me pergunto : “ Isso seria possível ? “
Conversas , insinuações e confissões foram feitas , você se mostrava um jogador esperto daqueles que realmente sabem o que estão fazendo e assim você foi conquistando seu território pouco a pouco movendo as peças calculadamente bem.
Minhas frases monossilábicas passaram a ser monólogos desajustados e guiados apenas pela emoção , quando eu menos percebi as paredes que eu tinha construído com tanto esforço , começaram a rachar , as rachaduras se intensificaram e cresciam da base ao topo , logo fiquei vulnerável como uma cobra que é poderosa e temida na terra mas que quando é vista de cima por uma águia não passa de um pequeno risco entre as pedras .
E mesmo vulnerável tentava manter meus pés no chão , fugindo de investidas e tomando caminhos alternativos . Porem a sua sinceridade me cativou e mesmo longe eu te sentia perto , mentir para você sobre o que eu realmente sentia era fácil , mas esconder isso de mim mesmo ficava cada dia mais difícil , eu contava as horas para chegar em casa e dividir meu dia morto contigo . E nisso imaginava , como seria te encontrar , como seria te ver , sentir o calor do seu abraço , desbravar seu corpo como um território desconhecido , provar do seu gosto .
O tão esperado dia chegou , depois de tantas tentativas frustradas finalmente iríamos olhar nos olhos um do outro e tentar talvez dessa maneira desvendar pensamentos . A viagem parecia longa , na mala eu apenas carregava expectativas que eu não queria demonstrar , na mente o seu rosto e no peito um coração que batia num ritmo acelerado .
Ao descer do ônibus o que me aquecia não era o calor dos seus braços e sim o sol forte que brilhava bem lá no alto , eram quase 12h00 e então você chegou . Um carro parou e eu entrei , sem mais . Nem nos meus melhores pensamentos , eu poderia imaginar que seu sorriso era tão iluminado , tão convidativo , que sua pele podia ser tão macia e suas palavras tão doces . Minha reação se limitava ao riso bobo de quem não sabe ao certo o que fazer ou dizer .
A sós eu mal acreditava quando suas mãos tocavam as minhas , eu imaginei isso por tanto tempo e agora me sentia realizando um desejo . Era como se eu já te conhecesse e ali me sentia completo , vivo , seguro . A duvida nos cobria com a incerteza de levar isso adiante ou não , por fim nos rendemos ao fogo que consumia nossos corpos e isso me pareceu tão certo , ao sentir sua boca na minha o mundo ao meu redor desaparecia e restávamos apenas nós , seu corpo pesava sobre o meu numa dança hipnótica que me prendia dentro de você e eu mergulhava fundo o depois pouco me importava , mas chegou sem avisar e ali nos deitamos lado a lado , sem palavras , sem olhar .
Algo estava errado e eu logo pude notar , o jogo tinha se invertido , agora era eu quem investia e você insistia na defesa , sua insegurança me afastou , ficou tarde e depois de tudo eu fui , voltei para o meu mundo e a viagem se mostrou mais longa do que parecia ser .
Como alguém que vi apenas uma vez na vida , pode me soar tão familiar e mexer tanto assim comigo ? A ponto de me fazer querer largar tudo e fugir para um lugar nosso , que pelo menos na minha cabeça era nosso .
Os dias foram passando e o jogo se manteve , eu sentia a necessidade de dar as cartas e comandar a partida e você continuava se defendendo e mudando de lugar , sua frieza era aparente e agora sim eu conseguia entender que eu estava perdendo . No começo eu acreditei que com o tempo isso iria mudar , mas chega uma hora que você percebe que insistir não é sinônimo de realização . E as vezes é preciso tomar decisões que machucam e então eu tomei a minha e desisti não da minha felicidade mas sim de você .
Eu só queria que você soubesse que não te culpo por nada , que eu dei o melhor de mim e que de certa forma queria que você entendesse que enxergo o que aconteceu como um impulso de natureza humana . Como disse não me contento com pouco , logo a sua amizade não me interessa , ao menos não no momento , os pedaços de mim que restaram em você permanecem , junto com seus fragmentos que sobraram em mim . As conversas que tivemos , hoje são apenas confissões do que um dia desejamos e não chegamos a realizar .
Eu não pretendo resgatar nada do que ainda resta em mim , e sei que hoje você sorri para um outro alguém com novas promessas e um novo brilho no olhar , você tem a sua versão e não me interessa saber , o que ficou para trás só cabe ao tempo apagar , por mais clichê que possa ser eu sei que um dia essas feridas irão cicatrizar , e vão entrar para o meu baú de memórias .
Com tudo isso eu aprendi que não se pode negar o que se é , que eu não devo esconder o que sinto , orgulho não funciona nesses casos , e o que se perde , se perde para sempre .
Mas eu não vou deixar de sorrir nunca , nem deixar de acreditar que um dia eu sentirei isso novamente , e quando isso acontecer eu estarei mais forte , mais esperto e só me abrirei quando estivermos na mesma sintonia e ritmo para tentar sem pressa escrever uma historia nova e ainda não dita . Ou talvez repetirei o mesmo erro de novo por que sinceramente eu não posso me arrepender da minha intensidade , ela me define como pessoa , sofrer é conseqüência de viver , e repito eu não te culpo por não tentar , afinal eu não posso fazer você me amar se você não ama .
P.S : Titulo e descrição do texto baseados no filme " 500 Dias Com Ela " , assim como a imagem .
Gustavo Marcolino
15/04/2012
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
...
O voyeur
Todos os dias ele passava horas e horas desperdiçando sua vida com pensamentos distantes diante da janela . Vezes com o cigarro na mão , vezes com um copo de vodka , matando - se lentamente .
Observava a rua calma que na madrugada era pouco iluminada , nela via cachorros e gatos perdidos sem lar e sentia uma forte empatia por eles , certa vez imaginou – se como um cão livre , sem donos , que pode andar por ai correndo perigo sem se preocupar com o que terá que fazer quando voltar , pois afinal ele não teria para onde voltar.
As vezes via prostitutas que pareciam levar a vida sem compromisso com o mundo , que ele no fundo sempre desejou . Conhecer pessoas , ter uma noite de prazer e ser remunerado por isso , teoricamente não lhe parecia uma vida tão difícil assim .
Via crianças que vagavam sem direção , parecendo sempre procurar algo para anestesiar a ausência que lhes causava dor .
Sentia um vento frio e olhava a lua e seu esplendor , quando o céu estava limpo era possível achar uma tarraxa de brinco em meio a escuridão apenas se deixando guiar pelo brilho da lua que iluminava a rua .
As arvores da praça o fascinavam e ele se prendia em galhos secos , que formavam desenhos tenebrosos nas sombras , garras que pareciam tentar agarrar a vida de alguém sem dó ou motivo .
Mas em meio a tudo isso via a si mesmo ... perdido , observando qualidades e defeitos das pessoas que captava de longe na janela . Um voyeur obcecado pela vida moderna , testemunha ocular dos crimes da noite . Ele não se importava , não julgava , só olhava . E de tanto olhar se viciou na ação de nada fazer a não ser deixar os olhos seguirem os movimentos . Para ele tudo que parecia , era .
Sendo gritos , batidas , risadas ou sons de satisfação ele apenas mirava os olhos para a direção oposta e ignorava o mundo que girava ao seu redor , afinal sua dor de ser tão incapaz era mais forte e importante do que tentar mudar algo . Se acomodou a vida toda e morreu ali . O infarto não teve muito trabalho de paralisar um coração já morto que batia apenas por inércia .
Os cachorros , gatos e pessoas que passavam todos os dias ali não sentiram sua falta , e não tinham motivos para sentir , afinal ele era apenas um figurante exercendo uma ação eterna , a de apenas observar , sem opinar e sem se importar .
No dia seguinte a sua morte o sol continuou a raiar , e o mundo não parou nem por um segundo . Ninguém se importou com o homem que morreu na janela , pois ninguém parecia saber que um dia ele existiu .
G.M
Todos os dias ele passava horas e horas desperdiçando sua vida com pensamentos distantes diante da janela . Vezes com o cigarro na mão , vezes com um copo de vodka , matando - se lentamente .
Observava a rua calma que na madrugada era pouco iluminada , nela via cachorros e gatos perdidos sem lar e sentia uma forte empatia por eles , certa vez imaginou – se como um cão livre , sem donos , que pode andar por ai correndo perigo sem se preocupar com o que terá que fazer quando voltar , pois afinal ele não teria para onde voltar.
As vezes via prostitutas que pareciam levar a vida sem compromisso com o mundo , que ele no fundo sempre desejou . Conhecer pessoas , ter uma noite de prazer e ser remunerado por isso , teoricamente não lhe parecia uma vida tão difícil assim .
Via crianças que vagavam sem direção , parecendo sempre procurar algo para anestesiar a ausência que lhes causava dor .
Sentia um vento frio e olhava a lua e seu esplendor , quando o céu estava limpo era possível achar uma tarraxa de brinco em meio a escuridão apenas se deixando guiar pelo brilho da lua que iluminava a rua .
As arvores da praça o fascinavam e ele se prendia em galhos secos , que formavam desenhos tenebrosos nas sombras , garras que pareciam tentar agarrar a vida de alguém sem dó ou motivo .
Mas em meio a tudo isso via a si mesmo ... perdido , observando qualidades e defeitos das pessoas que captava de longe na janela . Um voyeur obcecado pela vida moderna , testemunha ocular dos crimes da noite . Ele não se importava , não julgava , só olhava . E de tanto olhar se viciou na ação de nada fazer a não ser deixar os olhos seguirem os movimentos . Para ele tudo que parecia , era .
Sendo gritos , batidas , risadas ou sons de satisfação ele apenas mirava os olhos para a direção oposta e ignorava o mundo que girava ao seu redor , afinal sua dor de ser tão incapaz era mais forte e importante do que tentar mudar algo . Se acomodou a vida toda e morreu ali . O infarto não teve muito trabalho de paralisar um coração já morto que batia apenas por inércia .
Os cachorros , gatos e pessoas que passavam todos os dias ali não sentiram sua falta , e não tinham motivos para sentir , afinal ele era apenas um figurante exercendo uma ação eterna , a de apenas observar , sem opinar e sem se importar .
No dia seguinte a sua morte o sol continuou a raiar , e o mundo não parou nem por um segundo . Ninguém se importou com o homem que morreu na janela , pois ninguém parecia saber que um dia ele existiu .
G.M
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Ainda há tempo ?
Rosas Vermelhas
Senti uma pontada no peito ao deixar minha antiga vida para trás . Não sei explicar ao certo , mas é como se uma angustia tivesse tomado conta de mim .
Eu que nunca precisei de ninguém , que sempre fui só , me vi perdido e sem direção , rodeado apenas pelo meu próprio egoísmo que me dirigia .
As coisas fúteis que me satisfaziam antes , já não tinham um efeito tão duradouro , a sensação de estar bem era tão passageira como um trem , um trem que cruza um longo caminho em poucos segundos , fazendo alarde e provocando barulho , e que vai embora tão rápido quanto chegou .
Eu não me sentia bem , minhas mãos queimavam tentando tatear o chão , ajoelhado eu não sabia o que fazer , como fazer e por que fazer . Não tinha idéia de como tinha chegado aquele ponto e parecia não encontrar motivos para sair .
Me vi num lugar escuro , aprisionado dentro da minha própria mente . Não havia luz em parte alguma e tudo ao redor era confuso e sombrio . Cadê os sorrisos que um dia existiram ? Cadê as memórias que um dia foram boas , eu simplesmente não achava nada familiar .
Estava exposto no picadeiro da vergonha como se todos os rostos manchados apontassem seus dedos para mim , minha vontade era quebrar um a um , mas eu não conseguia .Ouvia apenas murmúrios distantes , e o circo dos horrores me consumia , sugava minha alegria e vontade de viver .
Nunca tentei provar nada para ninguém , e talvez por nunca ter me importado com a opinião alheia , as pessoas me julgassem tanto , isso nunca me incomodou , mas naquele momento tudo que eu desejava era uma máscara pra encobrir meus defeitos gritantes e esconder meu rosto de tamanha exposição .
Toda minha obscenidade e insensatez me confrontava e não havia mais nada a se fazer .
Eu sabia que esse dia chegaria , mas não sabia que viria tão depressa . Por um momento desejei estar no trem , aquele que partira tão depressa deixando apenas um rastro de fumaça .
Eu não tinha ninguém , imaginei o seu sorriso e isso me confortou , mas do que as drogas passageiras , mas mesmo assim não o suficiente para me fazer sumir dali . Naquele momento eu te queria , mesmo não sendo possível , mesmo meu orgulho sendo o maior empecilho , é difícil admitir fraqueza , mas no fundo eu queria que você me salvasse . Me salvasse de mim mesmo e de todos os meus medos infantis , sentia falta do seu conforto que eu deixei ir embora por puro egoísmo.
Mas era tarde demais , era eu contra o mundo , meu mundo .
Acompanhei um rastro branco no chão , em meio as trevas uma fresta entrava aos poucos e iluminava levemente aquilo que parecia um caminho formado por um pó branco que aos poucos me fez ficar em pé . Logo eu já conseguia correr e depois de uma caminhada que pareceu interminável achei uma porta aberta .
Minha respiração ofegante deixava transparecer meu medo e cansaço , mas eu não agüentava mais , precisava sair das sombras .
Passei tanto tempo na escuridão que quando vi a luz fiquei cego , a claridade me cegava e era difícil manter meus olhos abertos , eu pensava em você , pensava que talvez pudesse te ter novamente de alguma forma e isso me dava forças para continuar .
No fundo branco da minha mente , seu sorriso se formava e eu podia ler nos seus lábios : “- Mantenha os olhos abertos “ . Enquanto eu já quase gritava : “ - Não consigo , doi demais , é impossível “
Por toda minha vida eu tive preguiça de ser feliz , preguiça de iniciar uma conversa como qualquer pessoa normal , pois fugir e correr era mais fácil , eu não acreditava em mim , e precisava de elogios para me manter de pé , a falta deles me levou a cair no buraco , mas agora eu só pensava em sair de lá , não sei explicar ao certo , se foi por você ou se foi por mim mesmo .
Tudo que sei é que acordei , abri os olhos e a luz já não me machucava mais , eu podia ver com clareza tudo que tinha feito , toda a dor que causei a mim mesmo , e principalmente todo o rancor que eu plantei dentro de você . Minha cama estava vazia , e não era de se espantar , mas agora eu tinha forças , e estava decidido , de uma forma ou de outra eu queria você de volta , nunca é tarde demais quando algo tem que acontecer . Não seria fácil mas eu estava disposto .
Sai as pressas enrolado em trapos velhos , percorri o percurso até sua casa o mais rápido que consegui , o caminho era difícil , torto , com curvas , as pedras estavam espalhadas por todas as partes , meus pés sangravam , mas eu continuei , por que a luz me contagiava . Então cheguei .
Vi você de costas , como se tivesse virado as costas ao saber que eu batia a sua porta , e eu podia entender , sabia dos seus motivos e concordava com a maioria deles , só não concordava com um : “ Que era tarde demais “ .
Cheguei me aproximando devagar , juntando coragem , me recompondo , ganhando espaço , ainda assim hesitei e olhei para trás , tudo que restava era um caminho branco coberto de sangue que escorria dos meus pés , eu percorri o caminho mais difícil para te recuperar e nem sabia ao certo se conseguiria , mas algo me dizia para ao menos tentar .
Chamei seu nome , e você virou serio , confuso ao me ver , com ódio em me ver e com mais ódio ainda por não poder me tocar , vi seus lábios se entreabrirem num movimento de susto ao olhar as pegadas e o longo caminho que elas marcaram , lia no seu rosto “ Não acredito que você fez isso por mim “ ...
Era cedo para se ter qualquer conclusão , sempre é cedo para se ter certeza de tudo , pessoas tropeçam , fazem escolhas erradas , as vezes jogam espinhos , e o rancor é travesso e sujo , fica guardado e aparece nos piores momentos para ofuscar os acertos e sublinhar os erros , mas sempre há tempo quando se gosta , quando se quer e quando se está disposto . A distancia pode ser percorrida com sangue , mas o sangue rega as flores que nascem outra vez mais belas . Rosas vermelhas brotavam na estrada branca e junto com elas brotava em seu rosto um sorriso que numa curva interminável transparecia a sua alegria em me ver , e isso me bastava .
G.M
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