quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

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O voyeur



Todos os dias ele passava horas e horas desperdiçando sua vida com pensamentos distantes diante da janela . Vezes com o cigarro na mão , vezes com um copo de vodka , matando - se lentamente .

Observava a rua calma que na madrugada era pouco iluminada , nela via cachorros e gatos perdidos sem lar e sentia uma forte empatia por eles , certa vez imaginou – se como um cão livre , sem donos , que pode andar por ai correndo perigo sem se preocupar com o que terá que fazer quando voltar , pois afinal ele não teria para onde voltar.

As vezes via prostitutas que pareciam levar a vida sem compromisso com o mundo , que ele no fundo sempre desejou . Conhecer pessoas , ter uma noite de prazer e ser remunerado por isso , teoricamente não lhe parecia uma vida tão difícil assim .

Via crianças que vagavam sem direção , parecendo sempre procurar algo para anestesiar a ausência que lhes causava dor .

Sentia um vento frio e olhava a lua e seu esplendor , quando o céu estava limpo era possível achar uma tarraxa de brinco em meio a escuridão apenas se deixando guiar pelo brilho da lua que iluminava a rua .

As arvores da praça o fascinavam e ele se prendia em galhos secos , que formavam desenhos tenebrosos nas sombras , garras que pareciam tentar agarrar a vida de alguém sem dó ou motivo .

Mas em meio a tudo isso via a si mesmo ... perdido , observando qualidades e defeitos das pessoas que captava de longe na janela . Um voyeur obcecado pela vida moderna , testemunha ocular dos crimes da noite . Ele não se importava , não julgava , só olhava . E de tanto olhar se viciou na ação de nada fazer a não ser deixar os olhos seguirem os movimentos . Para ele tudo que parecia , era .

Sendo gritos , batidas , risadas ou sons de satisfação ele apenas mirava os olhos para a direção oposta e ignorava o mundo que girava ao seu redor , afinal sua dor de ser tão incapaz era mais forte e importante do que tentar mudar algo . Se acomodou a vida toda e morreu ali . O infarto não teve muito trabalho de paralisar um coração já morto que batia apenas por inércia .

Os cachorros , gatos e pessoas que passavam todos os dias ali não sentiram sua falta , e não tinham motivos para sentir , afinal ele era apenas um figurante exercendo uma ação eterna , a de apenas observar , sem opinar e sem se importar .

No dia seguinte a sua morte o sol continuou a raiar , e o mundo não parou nem por um segundo . Ninguém se importou com o homem que morreu na janela , pois ninguém parecia saber que um dia ele existiu .

G.M

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